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Desperdício Zero!

12 Novembro, 2016

Hello!

O meu livro já chegou! Foi rápido e estou «mortinha» por começar a lê-lo. Tenho noção que devo e tenho que começar por algum lado. A diferença poderá estar em pequenos gestos e eu pretendo ter muitos.

Depois, começarei uma série de partilhas de hábitos que já alterei. Vou mostrar tudo, aqui no blog. Agora, deixo.vos com uma entrevista da autora do livro.

 

Precisas realmente de tudo o que tens? Bea Johnson percebeu que não e reduziu a zero os seus desperdícios. O seu estilo de vida serviu de base a um movimento global com cada vez mais seguidores. A autora explica-nos em que consiste.

Desperdício Zero
A francesa Bea Johnson, autora do blogue Zero Waste Home e conhecida como uma autêntica “guru” na área do Desperdício Zero, explica neste livro a sua filosofia, oferecendo conselhos e dicas práticas para reduzir desperdícios em todas as áreas da vida.

Há alguns anos, morava numa casa com 280 metros quadrados nos subúrbios de São Francisco. Tinha dois carros, uma grande televisão… Vivia o sonho americano. Mas decidiu mudar radicalmente o seu estilo de vida a fim de implementar uma filosofia de Desperdício Zero. Porquê?

Porque a casa onde morávamos era ao estilo de Donas de Casa Desperadas. Precisávamos de ir de carro para todo o lado. Tínhamos saudades das vidas que levávamos nas cidades onde costumávamos morar – Londres, Amesterdão, Paris. Tínhamos saudades de andar a pé. Por isso decidimos mudar-nos para um lugar onde pudéssemos caminhar até às escolas, aos restaurantes, às mercearias. Um pouco como aqui em Lisboa.

Ficámos um ano num apartamento alugado, apenas com alguns objetos mais essenciais. Quando finalmente encontrámos a casa certa, fomos buscar o resto das nossas coisas – cerca de 80% das nossas posses – à arrecadação onde as tínhamos deixado e percebemos que nem sequer tínhamos dado pela falta da maioria. Por isso começámos a desfazer-nos delas.

Apercebemo-nos de que, nesse período, tivemos mais tempo para fazer as coisas que são importantes para nós – ler livros, ver documentários sobre o ambiente… E entristeceu-nos pensar no futuro que vamos deixar aos nossos filhos. Percebemos que temos a responsabilidade de criar um futuro diferente. Então reduzimos os nossos consumos. Mas  decidi analisar também os nossos desperdícios para tentar perceber como os reduzir. Comecei a comprar a minha comida a granel e a levar os meus próprios recipientes para comprar carne e peixe.

Na altura, o termo Desperdício Zero era utilizado apenas para descrever práticas de gestão das cidades ou do mundo industrial e não algo que fazemos em casa. Mas para mim fazia sentido. Pensei: isto é o que devemos estar a tentar fazer, é o objetivo que devemos ter em mente. Se o objetivo não é zero, para que serve?

Não havia nenhum guia para seguir um estilo de vida de Desperdício Zero, por isso tive de testar muitas coisas, pesquisar muitas coisas no Google, telefonar muitas vezes à minha mãe, à minha avó, à minha sogra, para lhes perguntar como costumavam fazer as coisas. Testei medidas mais extremas, mas gradualmente encontrei o equilíbrio e a solução para o nosso desperdício.

Quando as pessoas pensam em Desperdício Zero, associam-no geralmente a reciclagem. Não é nisto que a sua filosofia se baseia, mas antes em cinco regras fundamentais.

Sim. Na verdade, o Desperdício Zero defende que se recicle menos e não mais. A ideia é que se previna à partida que o desperdício chegue a casa. Seguimos cinco regras por ordem: recusar aquilo de que não precisamos; reduzir as coisas de que efetivamente precisamos; reutilizar aquilo que consumimos; reciclar aquilo que não podemos recusar, reduzir ou reutilizar; e finalmente compostar o resto.


Se há uns tempos tivesse ouvido falar de uma família sem desperdícios, teria pensado que devia ser coisa de hippies que vivem no mato.


Na prática, em que consiste isto?

A primeira regra é recusar as coisas de que não precisamos. Nesta sociedade consumista, somos os alvos de muitas coisas grátis: sacos de plástico, cartões de visita, panfletos publicitários. Vamos a uma conferência e oferecem-nos uma caneta. Mas cada vez que aceitamos estas coisas estamos a criar a necessidade de produzir mais. Quando aceitamos uma caneta, estamos a dizer: “Extraiam mais petróleo do solo para criar um substituto.” E o substituto é criado. Basta que recusemos estas coisas para acabar com isto.

A segunda regra é reduzir as coisas de que efetivamente precisamos. Significa adotar um estilo de vida minimalista – embora eu prefira o termo “simplicidade voluntária”. Passámos por um período de “limpeza” que permitiu que nos despedíssemos das coisas de que não precisamos realmente e que as colocássemos novamente no mercado para que outras pessoas as possam aceder. Porque estas coisas são recursos preciosos por si só.

Ao concluir isto, temos cada vez menos para reutilizar, o que significa trocar qualquer coisa descartável por uma alternativa que se possa usar várias vezes. Deixamos de comprar rolos de papel de cozinha, folhas de alumínio e embalagens de plástico porque percebemos que conseguimos viver sem elas ou porque as substituímos por reutilizáveis. Em vez de rolos de papel, usamos trapos. Em vez de lenços de papel, usamos lenços de pano. E isto tem um impacto gigantesco nas nossas finanças. Poupamos imenso dinheiro. Não sei se me queria perguntar isto a seguir…

Queria. Mas pode continuar.

É que, quando começámos, estávamos em plena recessão e o meu marido dizia que não tínhamos dinheiro suficiente para andar a comprar comida a granel ou produtos reutilizáveis – e as pessoas escreviam o mesmo no meu blogue. Por isso, pedi-lhe para comparar os extratos bancários do estilo de vida sem desperdícios com o anterior. E ele percebeu que estávamos a poupar 40% nas nossas despesas totais. Isto porque consumimos muito menos do que antes.

Quando hoje compramos algo, é apenas para substituir alguma coisa que precisa de ser substituída, como uma t-shirt que se tornou demasiado curta ou uns ténis que se rasgaram. Porque estamos satisfeitos com o número de coisas que temos. E quando o fazemos compramos em segunda mão, o que é geralmente mais barato.

Também compramos a nossa comida a granel. Quando se compra algo embalado, 15% do preço serve para cobrir o custo da embalagem – aliás, disseram-me há uns dias que, no caso dos detergentes para a loiça, o valor é de 70%. Comprando sem embalagem, conseguimos poupar pelo menos 15% em tudo. E como substituímos todos os descartáveis por reutilizáveis, o nosso dinheiro já não vai para o lixo. Porque comprar um produto empacotado que só usamos durante alguns segundos e depois deitamos fora é o mesmo que atirar o dinheiro diretamente para o lixo.

As poupanças de longo prazo que fizemos até nos permitiram instalar painéis solares no nosso telhado e sistemas de água ecológicos que nos deixam reutilizar a água do chuveiro e de lavar a loiça.

E as duas últimas regras?

A quarta é reciclar. Mas, mais uma vez, o Desperdício Zero não implica reciclar mais; implica reciclar menos. Reciclamos papéis (nos quais escrevemos em ambos os versos) e garrafas de vinho que os amigos trazem quando vêm a nossa casa – habitualmente enchemos as nossas numa loja local.

Finalmente, temos a compostagem. Nós não compostamos todas as cascas de frutas e vegetais, apenas as que têm de ser descascadas. Mas não descascamos courgettes, beringelas ou nabos, por exemplo, porque as suas cascas têm imensas vitaminas e aproveitamo-las.

Também compostamos as sujidades do chão. E os cabelos. Eu corto o cabelo do meu marido e dos meus filhos e também composto a minha franja, mas não o resto do meu cabelo, que envio para uma organização que faz perucas para doentes com cancro.

A apresentação do livro Desperdício Zero,
de Bea Johnson, foi feita na Maria Granel,
a primeira mercearia biológica
100% a granel em Portugal.
Eunice Maia, a sua fundadora,
escreve o prefácio da edição.

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No livro, refere um episódio curioso numa palestra que deu, com um estudante a perguntar-lhe: “Como espera que tenhamos tempo para fazer o que você faz?” O Desperdício Zero é um estilo de vida que exige muito tempo?

Não, é exatamente o contrário. Mas eu também teria pensado o mesmo. Se há uns tempos tivesse ouvido falar de uma família sem desperdícios, teria pensado que devia ser coisa de hippies que vivem no mato. Teria a certeza de que seria demasiado caro. E teria a certeza de que seria obra de uma dona de casa que não trabalha e passa os dias a preocupar-se com a figura. Não é, de todo, o caso.

Como referi há pouco, há montes de coisas que já não compramos, o que significa que já não tenho de ir tantas vezes às lojas, de as levar para o carro, de as carregar ao longo de 36 degraus, de as arrumar em casa. Depois de as usar, já não tenho de as separar, de encher um saco com elas e de o levar para a rua. Eliminei todas estas atividades. O estilo de vida minimalista ajudou-nos, na verdade, a poupar imenso tempo.

O que leva tempo neste processo é, em primeiro lugar, livrar a casa do que está a mais. E, depois, encontrar o sistema ideal para nós. Cabe a cada pessoa adaptar este livro ao seu estilo de vida, aos seus hábitos regionais, às suas restrições pessoais e até à sua dieta. Não posso falar por todos. Mas, por definição, uma vida mais simples não te retira mais tempo nem te complica a vida; cria espaço na tua vida para aquilo que mais te interessa.

O que parece realmente essencial é organização. E a Bea parece especialmente focada nela, ao ponto de referir que mantém sempre o seu desktop arrumado e até a caixa de e-mails limpa.

É disciplina. Existe uma certa disciplina quando estamos comprometidos e prestamos atenção ao que fazemos. Considero que um e-mail por abrir está a pedir uma ação da minha parte. Quando tomo a ação, posso removê-lo. Adoro ter uma caixa de e-mails limpa porque significa que fiz tudo o que tinha a fazer. Ninguém está à minha espera.

Claro que encontrar um sistema que funcione para nós demora algum tempo. Reaprender tudo também. Porque fizemos as coisas de uma determinada forma durante toda a vida e não é da noite para o dia que conseguimos mudar tudo.

Por vezes as pessoas leem o livro, caem-lhes as vendas e querem mudar tudo, mas se forem depressa demais vão ficar assoberbados. Nem nós adotámos o Desperdício Zero da noite para o dia, por isso não espero que alguém o faça. Hoje usamos bicarbonato de sódio para lavar os dentes. Mas não fomos diretamente de pasta de dentes para bicarbonato de sódio; passámos primeiro por pó dentífrico – com estévia, que corta o sabor salgado do bicarbonato de sódio – para nos habituarmos ao sabor. Se estiverem comprometidos, fazem o esforço.


Comprar um produto empacotado que só usamos durante alguns segundos e depois deitamos fora é o mesmo que atirar o dinheiro diretamente para o lixo.


Parece que há cada vez mais pessoas dispostas a fazerem esse esforço. Como vê isto?

Sinto-me muito orgulhosa. Arrepia-me e quase me traz lágrimas aos olhos só de pensar na dimensão que isto ganhou. Quando disse ao meu marido que queria criar um blogue, ele disse-me para não o fazer porque me estaria a expor às críticas. Mas acreditei que era importante partilharmos o que fazíamos com outras pessoas. Eu era uma au pair quando cheguei aos Estados Unidos, aos 18 anos, e nunca pensei que um dia estaria aqui em Lisboa a apresentar um livro. É uma loucura.

Começou por criar o blogue e aventurou-se depois na escrita do livro. Mas acredita que o mundo caminha para um futuro sem papel. Porquê então publicar um livro?

Porque ter apenas um livro eletrónico seria discriminatório para com as pessoas que apenas leem livros em papel. Cabe às pessoas escolherem se preferem ler em tablets ou em livros físicos. Pessoalmente, não consigo ler livros em tablets. Como passo algum tempo em frente ao computador, no final do dia os meus olhos estão cansados e quero afastar-me dos aparelhos eletrónicos. E, depois, nos tablets todos os livros parecem iguais. Perdem o design e a personalidade. Mas não quero dizer a ninguém como viver.

Como foi o processo de planear e escrever um livro tão detalhado?

Permitiu-me levar o meu Desperdício Zero ainda mais além, porque quando o comecei a escrever, em 2012, ainda não tinha soluções para tudo. Por exemplo, ainda comprava o meu rímel na loja. Foi enquanto escrevia o livro que decidi criar uma receita para rímel.

Mas, antes de o escrever, fomos muito criticados. A nossa história começou por ser publicada no New York Times em 2010 e as pessoas fecharam-se em presunções erradas, diziam que devíamos ser hippies e que estávamos a fazer mal aos nossos filhos ao privá-los das coisas. Podemos realmente dizer que estamos a privar os nossos filhos se os levarmos a restaurantes a sério, com comida a sério, em vez de ao McDonald’s? Tudo isto se devia ao facto de as pessoas não saberem em que consistia o Desperdício Zero.

Entretanto outra revista pegou na história, mas, ao contrário do New York Times, incluiu fotografias que mostravam como vivíamos, num artigo de nove páginas. Foi então que muitas pessoas pensaram: “Uau, o Desperdício Zero é assim? Também quero.” Algumas interessaram-se por razões de saúde, outras por razões económicas, mas muitas interessaram-se simplesmente pelo lado estético. Sentiram-se atraídas pelo minimalismo. Foi aí que o Desperdício Zero começou realmente a descolar.

Nas mãos de Bea Johnson
está um frasco que contém
todo o desperdício que a sua família
de quatro pessoas (e um cão)
produziu durante o ano de 2015.

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O que é um bom livro para si?

Adoro ler livros de viagem. O nosso estilo de vida é baseado em experiências e não em coisas, por isso o nosso dinheiro é investido em atividades e momentos. Por exemplo, quando chegámos a Portugal, em vez de comprar lembranças, fomos fazer coasteering, land sailing, saltámos de penhascos enormes, visitámos um barco-pirata em Portimão… Fizemos coisas que nunca tínhamos feito. Sou a grande planeadora de viagens lá de casa e adoro descobrir atividades interessantes.

Qual foi o último livro que leu?

Foi o guia de Belize da Lonely Planet, porque é lá que vamos neste Natal. Acho a série de guias da Lonely Planet fantástica. Permite-me ter um ponto de vista diferente sobre as coisas e sugere alternativas baratas. Quando fui ao Japão, li numa pequena nota, num destes guias, que era possível passarmos uma noite num templo. Foi o que fizemos e foi uma experiência incrível, que incluiu uma aula de meditação de manhã.

Escreveu o primeiro rascunho do seu livro à mão ou no computador?

No computador. Tinha um pequeno caderno de dez páginas, uma por capítulo, que fiz com papel usado, onde tomava algumas notas, mas tudo o resto foi feito num computador muito pequenino.


Uma vida mais simples não te retira mais tempo nem te complica a vida; cria espaço na tua vida para aquilo que mais te interessa.


Agora que tomou o gosto à publicação, podemos esperar mais livros?

Estou a trabalhar noutro, neste momento, mas ainda não quero falar sobre isso. Estou bastante ocupada atualmente. Desperdício Zero está traduzido para 12 idiomas e há muito trabalho envolvido em cada nova edição. Amanhã vou para Barcelona porque o livro será publicado em catalão. Há alguns dias estava na Eslovénia. Também estive em Beirute e até encontrei pessoas que já sabiam o que eu fazia. É entusiasmante ir a todos estes lugares e falar sobre o meu estilo de vida.

Que título daria a um livro sobre a sua vida?

Acho que posso dizer isto, porque é a segunda vez que estou em Portugal, mas podia ser o meu lema: Nunca Vás ao Mesmo Lugar Duas Vezes.

Também é um lema de Desperdício Zero.

[Risos] Exatamente. Porque há tantas coisas que quero ver, tantas culturas que quero descobrir. As pessoas criticam-me por viajar, mas sentada ao computador não teria conseguido lançar o movimento Desperdício Zero. E quero que os meus filhos viajem, porque quero que compreendam outras culturas. Acho que muitos dos problemas que vivemos atualmente no mundo se devem à intolerância para com outras culturas e religiões. Muitos problemas seriam resolvidos se nos compreendêssemos melhor uns aos outros.Que conselho daria a alguém que tenha lido o seu livro e esteja a ponderar adotar o Desperdício Zero mas não saiba exatamente por onde começar?

Para começar, basta aprender a dizer não. Quanto mais recusarem, menos têm para reduzir, reutilizar, reciclar e compostar. Na próxima vez que alguém vos ofereça alguma coisa – um cartão de visita, uma caneta, um saco de plástico, um panfleto, uma amostra de alguma coisa – pensem bem: precisam mesmo disso? Na sociedade moderna, por vezes quase parece rude recusar algo, mas podem simplesmente dizer: “É muito simpático da sua parte, mas não, obrigada.”

E que tal? Alinham!

Keep in touch,

E.R.

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